Mais Ciência, mais produtividade. Este foi o conceito apresentado pelo professor e doutor Mozart Neves Ramos, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (Ribeirão Preto), e graduado em Química pela Universidade Federal de Pernambuco, nesta terça-feira (16), durante a abertura do 60º Congresso Brasileiro de Química, edição que será realizada em formato on-line até o próximo dia 19.

Na sua palestra “Educação, Ciência e Desenvolvimento humano”, o professor disse que o assunto é uma estratégia nacional para o Brasil. “Faço, hoje, uma reflexão: um país no mundo atual não pode ser protagonista sem Educação de qualidade e diálogo com a Ciência”, apontou.

Mozart trouxe um estudo, realizado pela revista Forbes em 2010, que revela uma relação entre a produtividade e a escolaridade. ” No Brasil, a cada ano a mais de escolaridade, aumenta em 11% a renda de uma pessoa.”

Segundo ele, a contar oito anos de escolaridade da população, e acima dos 15 anos de idade, é o ponto de partida para o desenvolvimento socioeconômico do indivíduo.

No estudo, países como Coréia do Sul, Malásia, Chile e China tiveram um impacto significativo na produtividade laboral, entre 1980 e 2010.

“Na Coréia do Sul cada ano de escolaridade equivale a US$6,8 mil; enquanto no Chile, Malásia e China correspondem a US$3 mil, US$2,5 mil e US$3,5 mil, respectivamente”, acrescentou.

Ainda de acordo com o professor, o Brasil evoluiu em termos de anos de escolaridade, mas o impacto foi de 200 dólares por série adicional. “Isso mostra que o País fez um esforço de aumentar a sua escolaridade, mas não a sua qualidade.”

Para ele, a razão da queda produtividade nacional está ligada a fatores como baixa qualificação profissional (capital humano e massa crítica), tecnologia atrasada, investimentos altos, problemas de infraestrutura e burocracia.

Um outro estudo apresentado por Mozart, faz uma relação entre o Produto Interno Bruto, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), num conjunto de 15 países, sendo que a Irlanda lidera o ranking.

“Nesta análise, percebe-se que seis trabalhadores brasileiros são necessários para atingir a mesma produtividade de um trabalhador irlandês”, disse.

O cientista também apontou avanços e desafios. “A produção científica brasileira deu um salto de 32% no ano de 2020 em relação a 2015. “A nossa Química foi uma das protagonistas deste crescimento da Ciência brasileira. O Brasil ocupa a 11º posição na produção de artigos científicos.”

Ainda segundo o cientista, o Brasil precisa ampliar, e muito, a sua massa crítica, com gente bem formada. Enquanto o País possui 700 pesquisadores por 1 milhão de habitantes, a Argentina tem 1.200, e Israel tem 8.300.

“O Brasil ainda terá que fazer um grande esforço para melhorar a sua eficiência no ensino, criando mecanismos estratégicos para melhorar a qualidade da educação básica”. A pandemia agravou ainda mais o cenário da educação no Brasil.”

Mozart, que no momento se dedica à causa da Educação, afirma que abaixo de 400 pontos no Enem, o estudante não conseguiria o diploma no Ensino Médio.

Bons exemplos

Há saídas para o ensino brasileiro, segundo o cientista. Como exemplo, Mozart trouxe o Programa de Alfabetização do estado do Ceará. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2017 mostra que, em 10 anos, a rede pública de ensino cearense pulou para a sétima posição. O percentual de alunos com aprendizado adequado no 5º ano do Ensino Fundamental, no Ceará, na disciplina de Língua Portuguesa, sai de 21%, em 2007, para 67%, em 2019.

Outro dado importante de 2019 mostra que 99% dos municípios cearenses alcançaram as metas do Ideb. Enquanto que o estado mais rico da Federação, São Paulo, o índice foi de cerca de 65%. “É preciso investir numa política assertiva com resultados, e trabalhando em conjunto com os municípios.

Pernambuco também é outro modelo de boa performance na educação pública, com escolas de ensino médio em tempo integral. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) registram que o estado ocupava 21ª posição em 2007, e em 2015, chegou ao primeiro lugar. “O Brasil pode aprender com o Brasil, com governantes que priorizem a Educação, a Ciência e o desenvolvimento socioeconômico do Brasil”, encerrou o cientista.

60º CBQ

O Congresso Brasileiro de Química (CBQ) chega a sua sexagésima edição em 2021, após um ano de pandemia da Covid-19, onde um desgaste emocional assola a humanidade. Em meio a tantas incertezas e contradições, a Química, como ciência, tem a responsabilidade de trazer esclarecimentos à Sociedade.

Com essa sensibilização, frente às perdas e lutos que enfrentamos, o 60º CBQ tem como tema central a “Química é Vida”. Essa temática possibilitará reflexões contemporâneas acerca das relações entre a pluralidade das pesquisas químicas e sua importância para a vida da humanidade.

Para a presidente da Associação Brasileira de Química (ABQ), Silvana Carvalho de Souza Calado, a pandemia mostrou para a sociedade o quanto a Química é importante para o bem-estar de todos.

Jorge Cardoso Messeder, que ocupará o cargo de presidente da ABQ nos próximos anos, a edição deste ano traz discussões acerca da Química com a contribuição para a Ciência do País.

Fonte: http://cfq.org.br/noticia/abertura-do-60o-cbq-aborda-a-educacao-como-tema-de-desenvolvimento-socioeconomico/