Institucional
Alterar Read

A solução que quase envenenou o mundo

O caso do chumbo na gasolina

Desde o período Paleolítico (de aproximadamente 2,6 milhões de anos até cerca de 12 mil anos atrás), quando o homem criou os primeiros instrumentos de pedra — como machados e lanças —, sua inventividade não cessou. A cada nova ferramenta, aumentava sua capacidade de competir por espaço e recursos e, com isso, a população humana cresceu continuamente, chegando, hoje, a mais de 8 bilhões de indivíduos.

Desde a Revolução Científica, entre os séculos XV e XVII, o ritmo das invenções acelerou-se de forma exponencial. Dessa forma, é imperativo reconhecer, sem qualquer viés negacionista, que a ciência e a tecnologia, embora fundamentais para o desenvolvimento da humanidade, nem sempre produzem apenas os efeitos esperados. Em diversos casos, aquilo que foi inicialmente uma solução revelou, décadas mais tarde, consequências graves e imprevistas.

Um exemplo contundente dessa dinâmica ocorreu no início do século XX, quando a indústria automobilística buscava solucionar a "batida de pino", ou detonação, um fenômeno químico de combustão descontrolada e autoignição prematura que reduzia drasticamente a eficiência dos motores e causava danos mecânicos severos devido à multiplicação desordenada de radicais durante a oxidação de hidrocarbonetos sob alta compressão.

A busca por um aditivo capaz de estabilizar essa reação levou o químico Thomas Midgley Jr. e Charles Kettering, da General Motors, a demonstrar, em 1921, a eficácia do uso do tetraetilchumbo como aditivo à gasolina. Mesmo em pequenas quantidades, a substância revelou-se capaz de interferir nas reações em cadeia da combustão, reduzindo a formação descontrolada de radicais e resultando em motores de maior desempenho e eficiência energética.

Quem viveu nas décadas de 1960 e 1970 certamente se lembrará das propagandas nos postos de gasolina que exaltavam os benefícios desse aditivo à base de chumbo. À época, parecia que a ciência havia finalmente resolvido mais um problema, trazendo maior conforto à vida moderna.

Para viabilizar o uso comercial dessa substância e evitar que o chumbo sólido se acumulasse internamente nos motores, a formulação foi refinada com outros aditivos que convertiam o metal em espécies voláteis, como o brometo de chumbo II e o cloreto de chumbo II, garantindo que os resíduos fossem expelidos diretamente pelos gases de escape.

O que na época foi celebrado como uma solução técnica elegante e perfeita ignorou o destino final desse metal: uma vez emitido, o chumbo se dispersava em partículas finas que se acumulavam de forma persistente no ar, no solo e na água, totalizando uma emissão estimada de mais de 6 a 7 milhões de toneladas na atmosfera global ao longo de um século.

A gravidade desse legado ambiental reside no fato de o chumbo ser um metal persistente e um potente neurotóxico que não se degrada, possuindo a capacidade de interferir em processos bioquímicos vitais ao substituir íons essenciais nos organismos vivos e afetar diretamente o sistema nervoso central. 

Os impactos são particularmente devastadores na infância, onde mesmo exposições em baixas concentrações e assintomáticas estão associadas a reduções irreversíveis no quociente de inteligência (QI), dificuldades de aprendizagem, déficits de atenção e alterações de comportamento.

A compreensão plena dessa tragédia global só foi possível graças à persistência de pesquisadores como Clair Patterson, que enfrentou resistência industrial para provar o aumento da contaminação ambiental, e Derek Bryce-Smith, que alertou sobre os danos neurológicos silenciosos, culminando em um processo de eliminação progressiva do chumbo na gasolina, iniciado na década de 1970 e concluído em escala mundial apenas em 2021, quando, em agosto, na Argélia, o aditivo à base de chumbo finalmente deixou de ser comercializado. 

No Brasil, a eliminação prática do chumbo na gasolina começou no final da década de 1980 e foi amplamente implementada em 1991, quando a venda de gasolina com chumbo deixou de ser comum. Esse processo foi formalmente consolidado pelo Decreto nº 2.255, de 4 de junho de 1997, que proibiu oficialmente a comercialização de gasolina com chumbo, alinhando o país às práticas internacionais de saúde pública e proteção ambiental.

Esse exemplo ilustra como a busca constante da humanidade por melhoria nas condições de vida, desde a invenção do automóvel, do motor a gasolina, a melhoria da qualidade do combustível, permitiu mais mobilidade de todos, mas a um alto custo. 

Em última análise, a história do tetraetilchumbo serve como um lembrete sobre a inerente imprevisibilidade da atividade científica, em que uma inovação tecnicamente brilhante para resolver um problema imediato pode se desdobrar em consequências socioambientais de proporções catastróficas.

O que inicialmente se apresentou como uma solução de engenharia química transformou-se, sob a perspectiva do tempo, em um dos maiores experimentos involuntários de contaminação da história da humanidade, evidenciando que a elegância de uma fórmula laboratorial nem sempre antecipa os riscos que ela impõe à biosfera e às gerações futuras.

E, de forma mais ampla, convida à reflexão sobre os múltiplos custos — muitas vezes naturalizados — das tecnologias que sustentam a vida moderna, cujos benefícios imediatos frequentemente obscurecem seus impactos humanos e ambientais de longo prazo. 

Para saber mais: Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Era of leaded petrol over, eliminating a major threat to human and planetary health. 2021. [AQUI]

Luiz Claudio de Almeida Barbosa
Professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Belo Horizonte, 23 de março de 2026

Fonte: https://www.folhadamata.com.br/a-solucao-que-quase-envenenou-o-mundo