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O mundo está perdendo antibióticos eficazes

Uso incorreto acelera o avanço das superbactérias

Você certamente já tomou antibiótico pelo menos uma vez na vida. Lembra-se das recomendações do médico para seguir corretamente as instruções de uso da medicação? E se eu lhe dissesse que, ao interromper o tratamento ou utilizar esses medicamentos de forma inadequada, você pode estar ajudando bactérias potencialmente mortais a se tornarem ainda mais difíceis de combater? O mundo enfrenta hoje uma das mais graves crises de saúde pública do século XXI: a crescente disseminação de bactérias resistentes a múltiplos antibióticos, capazes de tornar infecções simples praticamente intratáveis. Para entender esse cenário, é preciso voltar no tempo.

Ao observarmos a história dos medicamentos que combatem infecções, notamos que, há séculos, o ser humano recorre à natureza em busca de meios para combater microrganismos. Muito antes da medicina moderna, diferentes civilizações já utilizavam substâncias naturais com esse propósito. Povos da Antiguidade recorriam a ervas, mel e outros produtos para tratar infecções. Entre essas práticas, uma das mais curiosas — e possivelmente eficaz — era a aplicação de pão mofado sobre feridas, um procedimento registrado em culturas tão diversas quanto o Egito Antigo, a China, a Grécia e Roma. Apesar de desconhecerem a existência de microrganismos, esses povos observavam empiricamente a melhora dos pacientes.

O verdadeiro avanço ocorreu com o desenvolvimento da microbiologia, que estabeleceu a relação entre microrganismos e doenças. No início do século XX, com o avanço da química sintética, as sulfonamidas surgiram como os primeiros agentes não naturais eficazes contra infecções. Pouco depois, a descoberta da penicilina, um produto de origem fúngica, revolucionou a medicina e inaugurou a chamada “era dourada dos antibióticos”. Entre as décadas de 1940 e 1950, dezenas de novos fármacos, sintéticos e naturais, foram introduzidos, transformando o tratamento de doenças antes frequentemente fatais e aumentando significativamente a expectativa de vida.

Esse ritmo, no entanto, não se manteve. Ao longo das últimas décadas, o número de novos antibióticos lançados no mercado tem sido muito baixo. Estima-se que, apenas na última década, cerca de 15 a 20 novos antibióticos tenham sido aprovados, a maioria sem inovação significativa e consistindo apenas em variações de classes já existentes. Esse cenário preocupa especialistas, pois reduz as opções terapêuticas disponíveis.

Ao mesmo tempo, as bactérias evoluíram rapidamente. Desde a década de 1940, começaram a surgir mecanismos de resistência, e hoje já existem cepas capazes de resistir a múltiplos medicamentos. Um exemplo clássico é o Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), identificado poucas décadas após a introdução dos 2 antibióticos modernos, evidenciando a capacidade de adaptação desses microrganismos.

Segundo o Relatório Global de Vigilância da Resistência Antimicrobiana (2025) da Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 6 infecções bacterianas confirmadas em laboratório já é resistente a antibióticos comuns. Trata-se de uma ameaça global que compromete desde tratamentos simples até procedimentos médicos complexos, como cirurgias e terapias intensivas.


No Brasil, o cenário também é preocupante. Dados do Ministério da Saúde indicam que a resistência a antimicrobianos é responsável por cerca de 34 mil mortes diretas por ano, além de milhares de casos associados a complicações graves. Para enfrentar o problema, o país implementou o Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência Antimicrobiana, além de medidas regulatórias, como a RDC nº 20/2011 da ANVISA, que exige receita médica para a venda de antibióticos. As autoridades de saúde também reforçam a importância do uso racional: não interromper o tratamento, não utilizar sobras e não se automedicar. Essas medidas são fundamentais para conter o avanço da resistência.

Cada um de nós tem um papel nessa guerra invisível. Ao tomar antibióticos de forma incorreta — seja interrompendo o tratamento ou usando-os sem indicação médica — você confere uma vantagem evolutiva às bactérias, acelerando a seleção de cepas mais resistentes. Isso ocorre porque, com doses inadequadas, apenas as bactérias mais vulneráveis são eliminadas, enquanto as mais resistentes sobrevivem e se multiplicam.

O mundo enfrenta uma crise global de escassez de antibióticos eficazes contra cepas bacterianas resistentes a múltiplos fármacos. Não basta que os cientistas desenvolvam novas moléculas: é essencial que cada pessoa faça a sua parte, seguindo rigorosamente as orientações médicas. O uso responsável desses medicamentos não é apenas uma questão individual, mas coletiva — dele depende a preservação de um dos maiores avanços da medicina moderna.

Luiz Cláudio de Almeida Barbosa
Professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais
E-mail: lcab@outlook.com
Belo Horizonte, 10 de abril de 2026

Fonte: https://www.folhadamata.com.br/o-mundo-esta-perdendo-antibioticos-eficazes