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Educação, desigualdade e poder: quase quatro séculos após Richelieu

A educação pública brasileira avança, mas segue marcada por desigualdades. O acesso ao ensino de qualidade ainda é restrito, e valorizar professores e investir nas escolas é urgente

A relação entre educação, desigualdade e poder não é nova. No século XVII, o cardeal Richelieu já afirmava: “Assim como um corpo que tivesse olhos em todas as suas partes seria monstruoso, da mesma forma um Estado o seria se todos os seus súditos fossem sábios.”

Essa metáfora expõe uma dura realidade histórica: o conhecimento foi, e muitas vezes ainda é, visto como ameaça ao controle político, por tornar as pessoas menos obedientes e mais críticas.

O debate sobre educação pública e desigualdade social, tão presente na mídia brasileira nas últimas décadas, insere-se nessa longa tradição de tensões entre o acesso ao conhecimento e a distribuição do poder na sociedade.

Essa tensão persiste no Brasil atual. Apesar da ampliação do acesso à educação básica nas últimas décadas, muitos brasileiros de baixa renda ainda sentem que a educação de qualidade não é para eles. Falo disso com base em minha própria experiência: estudei em escolas públicas desde a década de 1960.

Em 1974, ao optar pelo então chamado ensino científico, enfrentei resistência familiar. Para minha mãe, assim como para muitas famílias trabalhadoras, esse caminho era privilégio dos filhos de famílias ricas — um atalho para a universidade.

Ela acreditava que, dadas as limitações econômicas da família, deveríamos seguir carreiras mais 'práticas' e rápidas, como contabilidade ou o curso normal (no caso das meninas). Essa percepção refletia um sentimento coletivo ainda presente em muitos setores da sociedade, que limita as expectativas educacionais de famílias humildes e dificulta a inserção plena de seus filhos na universidade pública de qualidade.

Quase quatro séculos depois de Richelieu, o Brasil formalmente adotou o princípio oposto: o acesso à educação é direito de todos, e o ensino médio tornou-se etapa obrigatória da formação escolar. No entanto, os dados revelam que essa promessa ainda está longe de ser plenamente realizada.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2024, cerca de 72,6% dos universitários brasileiros cursaram todo o ensino médio em escolas públicas — avanço importante que demonstra a presença crescente da rede pública no ensino superior.

Entretanto, aproximadamente 74% desses estudantes frequentam instituições superiores privadas, enquanto apenas cerca de 26% estão em universidades públicas federais, estaduais ou municipais.

Nas universidades públicas, a Lei de Cotas, em vigor desde 2012, ampliou significativamente a presença de estudantes oriundos da escola pública. Instituições como a Unicamp e a UFMG exemplificam essa transformação, refletindo uma participação cada vez mais expressiva desse grupo entre os ingressantes.

Esses avanços representam um importante passo na democratização do acesso ao ensino superior, mas não eliminam as desigualdades estruturais do sistema educacional. Cursos tradicionalmente considerados de maior prestígio social, como Medicina, Engenharia e Direito, continuam sendo ocupados de forma desproporcional por estudantes provenientes das camadas mais favorecidas da sociedade, reflexo de trajetórias escolares desiguais que se iniciam muito antes do vestibular e se prolongam nos desafios de permanência e sucesso acadêmico.

Esse quadro também remete ao século XIX, quando o Brasil ainda não possuía universidades organizadas nos moldes europeus, mas apenas escolas superiores isoladas, e essas carreiras representavam os caminhos mais prestigiados de formação para os filhos da elite.

Essa desigualdade é reforçada pelas condições dos professores, atores centrais em qualquer processo de transformação educacional. O piso salarial nacional para professores da educação básica pública permanece relativamente baixo quando comparado à responsabilidade e à complexidade da profissão, apesar dos avanços obtidos nas últimas décadas.

O resultado é a formação de um ciclo que tende a reproduzir desigualdades sociais. As deficiências ainda presentes em grande parte da rede pública de ensino fazem com que apenas uma parcela dos estudantes consiga disputar em condições mais favoráveis as vagas nos cursos mais prestigiados, que, por sua vez, formam muitos dos futuros líderes políticos, profissionais de maior reconhecimento social e quadros dirigentes da sociedade.

Grande parte dos estudantes da rede pública acaba direcionada a cursos menos concorridos e a profissões menos valorizadas economicamente, perpetuando desigualdades históricas. O Brasil vive, assim, uma versão contemporânea da lógica evocada por Richelieu: o acesso aos percursos educacionais que conduzem às posições de maior influência social, política e econômica permanece concentrado em uma parcela relativamente privilegiada da população, não mais por imposição legal explícita, mas por desigualdades estruturais que atravessam todo o sistema educacional.

Para que a educação deixe de funcionar como instrumento de reprodução das desigualdades e se torne efetivamente um motor de mobilidade social, é indispensável valorizar os professores, investir de forma consistente na qualidade da escola pública e fortalecer políticas de inclusão e permanência em todos os níveis de ensino. Somente assim o “corpo” do Brasil deixará de carecer de olhos atentos em todas as suas partes, tornando-se um organismo mais pleno, crítico e capaz de construir um futuro coletivo mais justo.

Muitos estudantes oriundos da escola pública já demonstraram, ao longo das últimas décadas, que a educação pode ser um instrumento poderoso de superação, mesmo em contextos adversos. O desafio que se coloca para o país é fazer com que essas trajetórias deixem de ser exceção e passem a constituir uma realidade cada vez mais comum na sociedade brasileira.

Uma sociedade democrática não se fortalece quando o conhecimento permanece concentrado, mas quando se distribui amplamente entre seus cidadãos. A verdadeira superação da lógica evocada por Richelieu ocorrerá quando o acesso à educação de qualidade deixar de depender da origem social e se transformar em patrimônio efetivamente comum.

Luiz Cláudio de Almeida Barbosa

Professor titular de Química da Universidade Federal de Minas Gerais

05  de junho de 2026

Fonte: https://www.folhadamata.com.br/educacao-desigualdade-e-poder-quase-quatro-seculos-apos-richelieu