Dando início a uma jornada de dois dias de debates sobre os rumos da indústria brasileira e as alternativas para fortalecê-la, ocorreu na segunda-feira (24/03), em São Paulo, a abertura do 4º Seminário Internacional de IFA – o Ingrediente Farmacêutico Ativo. O evento, o maior da América Latina no segmento, é realizado pela Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi) e tem como apoio patrocinado o suporte do Conselho Federal de Química (CFQ).
A tônica dos discursos de abertura foi a necessidade de que o Brasil retome a capacidade de produzir localmente os IFAs. A indústria farmoquímica nacional, no passado, já teve capacidade de oferecer quase 50% dos produtos básicos para as farmacêuticas nacionais – hoje, esse percentual é inferior a 5%.
Norberto Prestes, presidente da Abiquifi, lembrou que a pandemia da Covid-19 acendeu a luz de alerta para o Brasil sobre os riscos de depender de IFAs importados e as fragilidades logísticas que essa abordagem apresenta.
“Em um cenário global marcado por volatilidade e riscos na cadeia de suprimentos, somado a questões geopolíticas cada vez mais agressivas, a constatação é de que a capacidade de se envolver e produzir insumos de medicamentos localmente é essencial para garantir a independência, soberania e a resiliência, por exemplo, do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil ou nos demais países da América Latina”, afirmou.
Por motivos de agenda, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, que também comanda o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), não pôde comparecer ao seminário. Por vídeo, ele afirmou que o governo federal considera estratégica a atenção à produção de IFAs nacionais – e destacou que iniciativas da União pretendem repor a cadeia industrial brasileira em posição de destaque outra vez.
“Nós do MDIC lançamos no início do ano passado o Nova Indústria Brasil e a missão dois desse projeto trata exatamente do complexo industrial da saúde. Um dos objetivos é que no ano que vem a gente já produza 50% de medicamentos, vacinas, equipamentos e dispositivos médicos. Em 2033, queremos chegar a 70%”, afirma o vice-presidente, destacando investimentos no segmento públicos e privados.
O vice-presidente da Abiquifi, Peter Andersen, disse acreditar que o intento de reduzir consideravelmente a dependência dos IFAs de fora do Brasil precisa ser entendido como um projeto de longo prazo.
“Não acredito na independência total, eu acho acho que é quase impossível. Mas certa independência é desejável. Para chegar lá ela deve tomar pelo menos 20 anos de trabalho. Não é um projeto de governo, é um projeto de Estado mesmo”, comentou.
Avanços científicos: exemplos inspiradores de inovação
Um dos destaques da programação do primeiro dia foi a apresentação de Boro Dropulic, cofundador da Caring Cross, uma organização sem fins lucrativos voltada à ampliação do acesso a terapias inovadoras. Ele afirmou que o tratamento identificado como “CAR-T”, que utiliza as próprias células de defesa do paciente para conter a evolução dos tumores, é uma realidade. O impeditivo, porém, é o preço: mesmo para o mercado americano, Drupolic aponta que apenas 25% dos pacientes elegíveis têm acesso ao medicamento, feito sob medida para cada doente. Na América Latina, o índice de pessoas que conseguem acesso a essa terapia é inferior a 1%. Soluções que permitam baratear o acesso são o desafio da Caring Cross e uma das apostas é a busca por parcerias – a brasileira Fiocruz é um exemplo.
“Na verdade, precisamos dessas parcerias até para desmistificar. Posso dizer que quando a equipe da Fiocruz entrou e observou nosso processo de fabricação atual, ficaram surpresos com a simplicidade do processo. É muito mais simples do que as pessoas geralmente imaginam a princípio. Há testes envolvidos, mas todos os parâmetros de teste, como PCR e citometria de fluxo, também são uma expertise residente. Mas a parceria e a expertise da Fiocruz colocam o Brasil em uma posição bastante diferente do restante da América Latina”, afirmou.
Outra palestra instigante se deu por parte da pesquisadora e empreendedora Carolini Kaid. Ela desenvolve um estudo com o vírus responsável pela Zika. A doença provocou milhares de casos de microcefalia em bebês nos últimos anos, mas certas características do vírus chamaram a atenção de Carolini. Ao modificá-lo, a intuição dela apontava para a possibilidade de aplicação em células cancerosas extremamente agressivas, especialmente no casos de câncer de cérebro. Os testes, já realizados em camundongos, apontam resultados animadores no combate às formas mais letais do câncer.
Na trilha de sua pesquisa e da inovação, Carolini teve de agregar outros conhecimentos: temáticas como financiamentos, mercado farmacêutico e até as questões relativas aos órgãos de re regulação entraram no seu cotidiano:
“Eu tive um desafio com isso porque não havia diretrizes sobre a terapia que eu estava desenvolvendo. Então, apenas duas terapias similares tinham comprovação. Então, eu precisava entender todas essas novas questões regulatórias e de qualidade e, em seguida, desenvolvê-las. Com os agentes regulatórios, é um grande desafio, mas estamos lidando com isso aqui no Brasil. É isso mesmo, essa é a Ciência brasileira”, afirma.
O Sistema CFQ/CRQs esteve representado no Seminário por integrantes do Comitê de Relações Institucionais e Governamentais (CRIG), os representantes de Conselhos Regionais de Química (CRQs) Hans Viertler (CRQ IV – São Paulo), Raquel Lima (CRQ XIX – Paraíba), Luciano Figueiredo (CRQ XII – Goiás, Tocantins e Distrito Federal) e Wagner Pedersoli (CRQ II – Minas Gerais), além do assessor de Relações Institucionais e Governamentais do CFQ, Antonio Lannes, e a Chefe da Assessoria de Comunicação, Jordana Saldanha.
Fonte: https://cfq.org.br/noticia/com-apoio-do-sistema-cfq-crqs-seminario-internacional-de-ifa-debate-caminhos-para-reduzir-dependencia-de-insumos-importados/
Conselho Regional de Química 2ª Região
Minas Gerais
Rua São Paulo, 409 - 16º Andar - Centro, Belo Horizonte - MG - 30170-902
(31) 3279-9800 / (31) 3279-9801